Técnicas de Visualização 3D no Tratamento Ortóptico

Tópicos:

Introdução

Visão Binocular e Estereopsia

Estereoscópios

O Uso de Estereoscópios em Ortóptica

Septos e Janelas

Anáglifos

Vectógrafos

Esterogramas

Resumo
As técnicas de visualização 3D constróem a sensação de profundidade de uma imagem por intermédio da visão binocular de duas imagens planas. Em essência, as diferentes técnicas criam a visão estereográfica pela exposição de uma imagem distinta a cada olho contando com a fusão cortical para o restante da construção. O mais simples exemplo disso é o Separador de Remi onde o olho direito vê somente a metade direita da transparência e o olho esquerdo apenas a outra metade. Conforme o caso, a distância aparente entre as duas imagens exigirá do espectador convergências maiores ou menores que a convergência acomodativa. E aí reside o potencial de sua utilização em exercícios ortópticos! Quando a imagem aparente vista pelo olho direito está à esquerda daquela vista pelo outro olho, o efeito é de convergência (equivalente ao uso de um prisma com base temporal); na situação inversa, o efeito é de divergência e equivale ao uso de um prisma com base nasal. Dentre as técnicas de visualização 3D utilizadas em ortóptica encontram-se os estereoscópios (de Brewster, de Wheatstone ou Amblioscópios; Queiroscópios também pode ser usados), os septos e janelas (a Régua de Vergência e o Separador de Remi são alguns exemplos), os anáglifos (que se valem de óculos com filtros verde/vermelho, os vectógrafos (que se utilizam de óculos com filtros polarizadores), e os estereogramas (Cartões de Vergência) que dispensam qualquer aparelho. Por conta do uso de espelhos ou lentes esféricas, septos ou filtros cada uma dessas técnicas apresenta vantagens e desvantagens sobre o uso de prismas em diferentes fases do tratamento ortóptico o que recomenda uma escolha criteriosa para cada caso.

Introdução

As técnicas de construção de imagens tridimensionais com sensação de profundidade tem sido objeto de atração para o Homem há séculos. Assim nasceu o desenho em perspectiva na Idade Média onde a noção de profundidade em um desenho plano é representada pela diminuição do tamanho dos objetos que se encontram mais distantes. No entanto, somente há pouco mais de um século, desenvolveram-se as técnicas binoculares que, além da perspectiva, exploram a habilidade de estereopsia.

A aplicação das técnicas de visão 3D binocular em Ortóptica vai muito além da estimulação da estereopsia. Na medida em que os desenhos de objetos como que saltam do papel, ou, ao contrário, a impressão é do objeto postar-se além do papel, como que afundado neste, requer-se uma convergência distinta da convergência acomodativa. O uso adequado desses efeitos propicia diferentes maneiras de se estimular a convergência e a divergência necessárias ao exercício da musculatura responsável pela motilidade ocular. Além disso, como essas técnicas são tipicamente dissociativas, abre-se espaço para os exercícios anti-supressivos, de vergência vertical, para diplopia fisiológica, etc.

Visão Binocular e Estereopsia

O fundamento das técnicas de visualização 3D está na visão binocular e na habilidade de estereopsia. Na visão binocular normal, ortofórica, emétrope, ao concentrar-se a atenção visual sobre um determinado ponto de uma cena tridimensional, este projeta-se sobre pontos correspondentes das fóveas em decorrência da fusão. Nessas condições, as imagens de outros pontos da cena, localizados à frente ou atrás do centro de interesse, projetam-se em pontos retinianos não correspondentes. Quando a diferença espacial entre os objetos é pequena, a diferença entre as suas imagens nas retinas também o é e a fusão cortical resolve a disparidade com a sensação de diferença de profundidade da estereopsia. Quando as diferenças espaciais são maiores, ocorre a diplopia fisiológica na qual a fusão não elimina a dupla visão de objetos espacialmente distantes daquele que se encontra projetado nas fóveas.

Visão Binocular

A figura a lado ilustra parte desse processo. Considerando-se que o ponto de fixação é o quadrado vermelho, o triângulo azul, pouco atrás, tem sua imagem projetada levemente à esquerda da fóvea esquerda e também à esquerda da fóvea direita. Esse triângulo não se projeta em pontos correspondentes, mas a discrepância é bastante pequena. Já com o círculo verde as discrepâncias são bem maiores: sua imagem projeta-se à direita da fóvea esquerda e à esquerda da fóvea direita causando assim impressão de duplicidade. Em decorrência, o triângulo azul é percebido sem diplopia e pouco atrás do quadrado vermelho, enquanto o círculo verde é visto em diplopia perdendo-se a exata percepção de sua profundidade.

Os dois retângulos logo abaixo do diagrama ilustram as imagens vistas por cada um dos olhos. Observa-se ali a pequena discrepância entre as imagens dos triângulos azuis e a grande discrepância entre as imagens dos círculos que chegam a postar-se em lados opostos do ponto de fixação.

A habilidade de estereopsia resulta da capacidade de aperceber-se dessas discrepâncias. O valor do ângulo da discrepância medido em segundos de arco é utilizado como medida da estereopsia. Os valores de estereopsia considerados normais encontram-se no entorno de 40 segundos de arco (40"), ou seja, indivíduos com habilidade de estereopsia normal conseguem aperceber-se de discrepâncias angulares maiores ou iguais a 40".

Os testes de estereopsia medem a acuidade dessa percepção determinando a magnitude da menor discrepância percebida como diferença de profundidade. Diversas técnicas são utilizadas para esse fim; muitas delas apoiam-se em princípios discutidos nesse artigo simulando pelo uso de óculos (verde/vermelho ou polarizador) uma imagem com profundidade (Titimus, TNO, etc); outros testes (tais como o Teste de Estereopsia da VERGÊNCIA) utilizam-se de uma imagem que realmente possui profundidade, dispensando por isso qualquer outro artefato, tal com os óculos.

Estereoscópios

Estereoscópios simulam a visão tridimensional essencialmente pela apresentação a cada olho da imagem da cena que este olho veria. No exemplo da figura anterior, um estereoscópio apresentaria ao olho direito a imagem plana rotulada OD e ao outro a imagem plana com rótulo OE. Como resultado da fusão das imagens dos quadrados, a pequena discrepância entre as posições retinianas dos triângulos seria percebida como diferença de profundidade. Note que outra possibilidade seria a fusão macular dos triângulos e nesse caso, a discrepância das posições retinianas dos quadrados seria percebida como este postando-se a frente do triângulo. Numa terceira alternativa, pela adequada convergência, poderia haver a fusão dos círculos verdes e, então, a grande discrepância entre as posições retinianas das imagens dos quadrados e dos triângulos seria percebida como diplopia e a estereopsia seria perdida.

Diferentes estratégias são usadas no projeto de estereoscópios, embora todas explorem algum tipo de dissociação. Um dos primeiros de que se tem registro é devido a Wheatstone, que apresenta um esquema simples à base de espelhos (veja figura). Dois espelhos (em azul na figura) formando um ângulo de 90 graus desviam o campo de visão dos dois olhos para duas figuras (em vermelho) que são disposta frente a frente, uma à esquerda e outra à direita do espectador. Os espelhos tem assim a função de dissociar e quebrar a fusão. A posição específica das figuras laterais determina o grau de convergência e de acomodação necessários à fusão e à visão estereoscópica.

A demanda de acomodação imposta pelo aparelho pode ser variada afastando-se ou aproximando-se as duas figuras dos espelhos (movimentos horizontais no esquema ao lado). Os requisitos vergenciais também podem ser variados por deslocamentos verticais (no esquema) das duas figuras. Se as figuras são deslocadas para baixo, suas imagens aparentes afastam-se: a imagem vista pelo olho direito desloca-se para a direita e a outra para a esquerda. Cria-se com isso um efeito prismático divergente assim denominado por ser equivalente à inserção de um prisma em base nasal. Como consequência desse efeito, as direções visuais na fusão encontram-se atrás do plano de acomodação e a convergência visual é menor que a convergência acomodativa.

Se, ao contrário, as duas imagens são deslocadas para cima (no esquema) suas imagens aparentes cruzam-se: a imagem vista pelo olho direito desloca-se para a esquerda e a outra para a direita. Cria-se com isso um efeito prismático convergente equivalente à inserção de um prisma em base temporal. Como consequência desse efeito, as direções visuais na fusão encontram-se a frente do plano de acomodação e a convergência visual é maior que a convergência acomodativa.

Um dos queiroscópios mais simples, o de Pigeon-Cantonet, guarda notável semelhança ao estereoscópio de Wheatstone. Neste queiroscópio, há um único espelho a 45 graus do rosto do espectador que desvia o campo de visão de um dos olhos para um painel vertical que suporta uma figura. O outro olho tem visão direta do painel horizontal sobre o qual se coloca o papel de desenho nos exercícios anti-supressivos ou uma segunda figura na execução de exercícios vergenciais ou de estereopsia.

O queiroscópio de Maddox faz uso da mesma estratégia embora ele seja munido de um par de lentes positivas para relaxar a acomodação. Neste também, de forma similar, podem ser realizados exercícios vergenciais e de estereopsia ao utilizar-se duas figuras localizadas uma no braço vertical e a outra na base do aparelho. O deslocamento horizontal dessa segunda figura na base determinará a demanda de convergência ou divergência do exercício. Se você tiver um queiroscópio, dê uma olhadela em Experimentando a Estereopsia com um Queiroscópio.

A estrutura típica de um estereoscópio é sempre a mesma: os campos visuais dos olhos são separados (dissociação) e eventualmente desviados de modo que cada um veja apenas uma de duas figuras estereoscópicas. Os estereoscópios orientados para aplicação em ortóptica (baseados no estereoscópio de Brewster, um irlandês que o concebeu em fins do século 19) dispõem em geral de lentes positivas que permitem aliviar a demanda de acomodação e mecanismos de controle da demanda de acomodação e vergência. As lentes são tipicamente montadas de modo que os seus centros óticos distam de 85 a 95mm o que produz um efeito prismático convergente. A distância entre o painel de figuras e as lentes é ajustável propiciando um controle sobre a demanda de convergência e de acomodação. Alguns modelos dispõem de ajuste contínuo da distância entre as figuras de modo a variar a demanda de convergência independente da demanda de acomodação. Amblioscópios (sinoptóforos) são, de certa maneira, estereoscópios sofisticados (e dispendiosos) pela inclusão de diversos mecanismos de controle de acomodação, desvio e vergência. Muitos dos exercícios realizados com Amblioscópios podem ser reproduzidos com estereoscópios.

O Uso de Estereoscópios em Ortóptica

A primeira observação ao considerar-se um estereoscópio é a de que ele é dissociativo. Isso por si só permite uma série de aplicações em ortóptica. No entanto, as possibilidades de variação da demanda de convergência e de acomodação alargam seu potencial de uso. Pela escolha de um adequado par de figuras, os estereoscópios podem ser usados para:

  • Exercícios anti-supressivos não só pela inclusão de marcas de controle distintas em cada uma das figuras mas também por conta da necessidade da visão binocular para a percepção da estereopsia;
  • Exercícios de percepção simultânea;
  • Exercícios para o alargamento da amplitude fusional;
  • Exercícios de vegência vertical;
  • Exercícios da capacidade de acomodação, pela variação da distância das figuras às lentes;
  • Avaliação de estereopsia.

Note que muitos dos exercícios citados não requerem o uso de um par de figuras estereoscópicas e aproveitam-se apenas da natureza dissociativa do aparelho; essa característica é partilhada no uso das outras técnicas estereográficas em ortóptica.

Septos e Janelas

Outras estratégias simples para visão estereoscópica são as encontradas nos Separadores de Remi e nas Réguas de Vergência, muito embora esses aparelhos não tenham sido concebidos com essa finalidade. No Separador de Remi, um septo vertical encostado ao septo nasal separa os campos visuais dos dois olhos; na outra extremidade daquele septo uma transparência é colocada de modo que cada olho veja apenas uma de suas metades. Em cada uma dessas metades uma imagem distinta (ou não) pode ser impressa de modo que apenas um dos olhos poderá vê-la. Tipicamente, no Separador de Remi, as imagens são complementares, tais como um aquário numa delas e um peixe na outra, de modo que pela fusão cortical, com a correta vergência, o peixe pode ser visto dentro do aquário. A distância entre as figuras de cada metade da transparência determinará o quanto de divergência (de efeito prismático divergente) será necessária à planejada fusão das figuras.

Uma pequena variação de localização do septo do Separador de Remi é utilizada nos exercícios de divergência da Régua de Vergência que trabalha com um par de figuras em cartão voltado para o paciente, como se vê na figura ao lado. Note que, apesar da mudança de tamanho e orientação do septo, ele tem a mesma função de bloquear a visão da figura do lado oposto de cada olho. Embora não tenha esse objetivo, um Separador de Remi poderia ser utilizado para visualização de imagens estereoscópicas. Pela natureza de sua construção, entretanto, os separadores de Remi não se prestam a exercícios de convergência.

A Régua de Vergência recorre a janelas para demandar convergência (vide figura). A janela, de tamanho e posição estrategicamente escolhidos, limita o campo visual restringindo a cada olho a visão apenas da figura do lado oposto. Observe-se que, nos exercícios de divergência da Régua de Vergência, as direções de visão cruzam-se além do plano das figuras, ou seja, apresentam o efeito prismático divergente. Nos exercícios de convergência, ao contrário, o encontro das direções visuais se dá antes do plano de acomodação criando um efeito prismático convergente.

O aumento da distância entre as duas figuras da Régua (conseguido em geral pela troca do par de figuras) em qualquer desses exercícios produz um aumento de vergência (positiva ou negativa). No entanto, se figuras com efeito estereoscópico são utilizadas, com um mesmo par, pode-se conseguir uma amplitude de convergência maior que 15 dioptrias prismáticas em um mesmo exercício (exemplo ao lado).

Anáglifos

Foram criados em fins do século 19 como uma forma simples de produzir a impressão de 3D com pouco aparato. Anáglifos não requerem o uso de estereoscópios mas apenas de um par de óculos com filtro verde e vermelho. Popularizaram-se através de revistas em quadrinhos com efeito 3D. Em um anáglifo, as duas imagens da visão binocular são montadas em um mesmo suporte, mas desenhadas com cores diferentes: a que deve ser vista por um dos olhos é impressa em vermelho e a outra é impressa em verde. O princípio da visão estereográfica de um anáglifo é o mesmo das Luzes de Worth: a quebra de fusão e a complementaridade das cores. O olho submetido ao filtro vermelho verá apenas o desenho traçado em verde (que aparecerá enegrecido), pois o traçado vermelho ficará indistinguível do fundo branco avermelhado pelo filtro; de modo similar, o desenho traçado em vermelho será visível apenas pelo olho filtrado pelo verde. Nas aplicações em ortóptica, o filtro vermelho cobre o olho direito. Assim, a imagem a ser vista pelo olho esquerdo é desenhada em vermelho e a do olho direito em verde. Vejamos um exemplo.

O desenho ao lado representa um anáglifo de percepção simultânea. Sob a ação dos filtros dos óculos, o desenho do gato sem olhos (em vermelho) será visto apenas pelo olho esquerdo enquanto o desenho com o rosto do gato será visto apenas pelo olho direito. Uma vez obtida a fusão das duas imagens, o resultado será aproximadamente (a menos das cores) o que aparece na figura em preto e branco que se segue. Note que nesse caso, como consequência da fusão, cada olho mira a figura do lado oposto o que cria um efeito prismático convergente. Se invertermos a posição relativa das figuras, isto é, se a vermelha estiver à esquerda da verde, a fusão delas sob a ação dos óculos demandará uma divergência, ou melhor, uma convergência menor que a acomodativa. O montante da vergência demandada por um anáglifo dependerá da distância entre as duas figuras (a defasagem) e da distância dos olhos à figura. Quanto menor for esta última e quanto maior a defasagem entre as figuras, tanto maior será a vergência. Para uma distância dos olhos à figura de 33cm, cada centímetro de defasagem demanda 3 DP de vergência.

Nas aplicações em ortóptica, os anáglifos podem ser de defasagem fixa ou de defasagem variável. Os anáglifos de defasagem fixa tem as duas imagens impressas em um mesmo suporte e só permitem que se varie a vergência pela alteração da distância de leitura. Nos anáglifos de defasagem variável (em breve a Vergência estará oferecendo esses anáglifos) cada desenho é impresso em um suporte transparente distinto, e podem ser superpostos com a defasagem que produza a vergência desejada. Um anáglifo de defasagem variável permite tanto exercícios de convergência como de divergência, ao contrário dos de defasagem fixa.

Algumas aplicações ortópticas de anáglifos incluem:

  • Exercícios anti-supressivos (fusão e percepção simultânea);
  • Exercícios vergenciais de até 40 DP;
  • Exercícios de vergência vertical;
  • Exercícios para a diplopia fisiológica;
  • Avaliação de estereopsia.

Os anáglifos previstos para avaliação da estereopsia são formados por pares de imagens com as discrepâncias necessárias à criação da sensação de profundidade. No anáglifo de letras que se segue, a distância entre cada letra e sua contraparte da outra cor é a mesma (requerendo portanto mesma convergência) exceto para uma delas onde essa distância é maior (o que demandará maior convergência para a fusão). Assim, a rigor não é possível uma fusão exata das duas figuras devido a esta discrepância. No entanto, a maior convergência necessária à fusão de uma das letras fará com que ela se destaque à frente das demais criando a sensação de uma maior proximidade dessa letra. Esse exemplo mostra além disso que é possível com anáglifos (ao contrário das demais técnicas discutidas até aqui) trabalhar com defasagens (e portanto vergências) menores que a largura das figuras. Por conta disso, anáglifos podem ser mais indicados no início dos exercícios vergenciais quando baixos valores podem ser indicados.

Por fim, observe-se que alguns sistemas de anáglifos usam vermelho e azul (ou ciano) tanto nos óculos como nos desenhos. O princípio é o mesmo do verde-vermelho. Além disso, os sistemas de visualização 3D usam em geral o filtro vermelho no olho esquerdo ao contrário das aplicações em ortóptica. Por isso, os óculos verde-vermelho usados em ortóptica são inadequados para a visualização de quadrinhos 3D, por exemplo. Nestes, os anáglifos são de defasagem fixa e demandam pequena divergência.

Vectógrafos

Vectógrafos são em concepção e uso similares aos anáglifos: são formados por duas figuras impressas de forma distinta sobre um suporte que causam a sensação de profundidade quando visualizadas com um par de óculos munidos de filtros especiais. Cada filtro permite que se veja apenas uma das figuras eliminando a outra. O tipo de filtragem no caso dos vectógrafos não se baseia na complementaridade das cores como nos anáglifos: são filtros polarizadores (também chamados incorretamente de polaroides).

A primeira impressão visual de um filtro polarizador é de que ele é cinza e simplesmente atenua a luz incidente. No entanto, um filtro desses só deixa passar os raios de luz polarizados com certa direção: os raios com polarização distinta são absorvidos pelo filtro. Um óculos com filtros polarizadores para aplicações em estereografia ou em ortóptica tem o filtro esquerdo polarizado numa direção e o filtro direito polarizado na direção transversal àquela. Assim, se um raio de luz tem a polarização adequada para ultrapassar um dos filtros será necessariamente absorvido pelo outro filtro. Além dos filtros, a impressão das figuras também é especial e polarizada. Como resultado, cada olho por ação do seu filtro consegue enxergar apenas uma das duas figuras.

Em princípio, tudo que se pode fazer com anáglifos pode ser realizado com vectógrafos. Estes tem a vantagem de preservar as cores e os óculos dão a impressão apenas de um óculos de sol. Isso significa, porém, que a quebra de fusão com os óculos polarizadores é praticamente inexistente. Além disso, vectógrafos são de produção mais dispendiosa que os anáglifos e não podem ser produzidos num monitor de vídeo comum de um computador como os anáglifos. Essa é a técnica normalmente usada em cinema 3D.

Estereogramas

Nas técnicas apresentadas até agora, a visualização 3D é obtida pela dissociação e pela exposição a cada olho da imagem que aquele olho teria da cena 3D. O controle dessas exposições até aqui se deu através da separação dos campos visuais dos dois olhos por meio de septos, janelas, filtros, lentes, prismas e espelhos. A técnica de visualização de estereogramas não exige qualquer tipo de aparelho ou recurso artificial para dissociação. Por isso mesmo, requer do praticante alguma habilidade de quebra de fusão que deve ser desenvolvida. Se tomarmos um par de figuras estereoscópicas ou de percepção simultânea como a do exemplo ao lado, é possível exercer a vergência necessária para que ocorra a fusão entre a figura da esquerda e da direita. Se o esforço for de convergência, a figura da esquerda cobrirá a fóvea direita e a figura da direita, a fóvea esquerda.

Como resultado disso, três figuras serão percebidas: a da esquerda será igual à figura da esquerda no estereograma (vista apenas pelo olho direito), a da direita a mesma que aparece à direita no estereograma (vista apenas pelo olho esquerdo), e a do meio será a fusão das duas (visão binocular). A figura seguinte, onde a tríplice visão aparece em azul, ilustra esse caso. Note que as duas direções visuais encontram-se em um ponto anterior ao estereograma criando um efeito prismático convergente. Para facilitar a obtenção da fusão por convergência, usa-se o dedo ou um lápis a frente do estereograma numa posição tal que a sua ponta quando vista pelo olho esquerdo projete-se, por exemplo, no meio da barriga do gato à direita, e ao mesmo tempo quando vista pelo olho direito projete-se no mesmo ponto da figura da esquerda. Ao convergir-se a visão para a ponta do dedo ou do lápis, veremos ao fundo as duas imagens se fundirem. A transferência do plano de acomodação (sem alterar a vergência) para o plano do estereograma completa o processo.

Se o esforço exercido para a fusão for de divergência, o encontro das direções visuais se dará além do plano do estereograma e a tríplice figura (ilustrada a seguir também em azul) será a mesma tendo ao centro a fusão almejada. Para facilitar a obtenção dessa vergência, pode-se encostar o nariz no centro da figura e afastá-lo lentamente enquanto busca-se a fusão. Outro artifício é o de olhar um ponto ao longe por cima do cartão e buscar perceber a ocorrência da fusão das figuras no estereograma.

Por não contar com recursos artificiais dissociativos (septos, lentes, filtros, prismas ou espelhos), os campos visuais dos dois olhos não são separados o que faz com que a figura do par que deveria ser "filtrada" intervenha na visualização causando alguma perturbação. No entanto, não se deve desprezar o valor dessa técnica que, com um custo extremamente baixo, pode ser usada como um coadjuvante de uso doméstico à terapia do consultório. Os Cartões de Vergência tem esse objetivo.

Embora o exemplo ao lado restrinja-se à estimulação da percepção simultânea, a técnica de visualização direta de estereogramas admite que se teste e explore a estereopsia, bastando para isso que se parta de um par de figuras estereográficas. Assim, num único estereograma pode-se oferecer uma ampla gama de vergências, positivas ou negativas, e estimulação da estereopsia. A figura abaixo dá um exemplo bastante simples de estereopsia típica de um estereograma.

A visualização de estereogramas como os apresentados tem o inconveniente de que apenas a figura central das três é o resultado de uma fusão. As outras duas são, por assim dizer, resultado da diplopia própria ao processo. Nas aplicações lúdicas de estereogramas, usa-se em geral uma série de figuras em lugar de duas: são os estereogramas múltiplos. Com isso, a diplopia fica quase imperceptível pois só se manifesta na primeira e na última figura de cada série. O princípio de funcionamento e a técnica de visualização são essencialmente as mesma apresentadas anteriormente. Nos usos lúdicos, os estereograma devem ser visualizados com divergência para que apresentem a correta sensação de profundidade.

A figura abaixo mostra um exemplo de um desses estereogramas. Ali aparecem três séries de figuras idênticas: uma de triângulos, uma de círculos e uma de barras verticais, simulando uma cerca. A distância entre cada par de figuras em cada série é a mesma; no entanto, há pequenas variações entre essas distâncias quando se passa de uma série para outra. Estas diferenças são responsáveis pelo efeito 3D do estereograma. Quando ele é visualizado com divergência, tem-se a sensação de que a cerca está a frente dos círculos e estes estão a frente dos triângulos. Quando visualizado com convergência, essa sensação de profundidade inverte-se.

É possível visualizar-se esse estereograma com diversos graus de convergência e de divergência. Na convergência, podemos produzir a fusão de dois círculos subsequentes na série. Entretanto, níveis maiores de convergência podem ser atingidos com a fusão de círculos que estejam a distâncias maiores. Igualmente, pode-se exercitar diferentes graus de divergência. é interessante notar que independente do grau de vergência exercido a sensação de profundidade não se altera, exceto quando se passa da vergência positiva para a negativa, e vice versa.

As aplicações de estereogramas múltiplos em ortóptica ainda estão por ser exploradas.

Comentários e Sugestões

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Ronaldo Persiano (vergenciapo@vergencia.w3br.com)

 


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Página: http://vergencia.w3br.com/3d/3d.htm Revisada em outubro de 2004